Goiânia, Quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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Sem os dois braços, servidora de Anápolis tira carteira de motorista e realiza sonho

Kathrein Moura Faria, de 36 anos, é bacharel em Direito, pós-graduada em Segurança Pública e dirige carro com câmbio automático; ela também cozinha sem utensílios adaptados

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Sem os dois braços, servidora de Anápolis tira carteira de motorista e realiza sonho

Aos 36 anos, Kathrein Moura Faria construiu uma trajetória marcada por conquistas que vão da formação acadêmica à realização de um sonho antigo: tirar a carteira de motorista. Natural de Anápolis, ela nasceu sem os dois braços e, desde a infância, contou com o apoio da família para desenvolver habilidades e encontrar formas próprias de realizar as atividades do dia a dia. Hoje, é bacharel em Direito, pós-graduada em Segurança Pública e servidora pública municipal.


A relação com a mãe foi decisiva nesse processo. Desde criança, Kathrein recebeu incentivo para experimentar, errar e descobrir suas próprias maneiras de fazer as coisas. Ela também contou com o apoio da irmã, Ivana. Com o tempo, aprendeu a cozinhar sem utensílios adaptados e encontrou uma forma de dirigir carros com câmbio automático.


Atualmente, Kathrein trabalha no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do município. Antes, atuou durante nove anos no Tribunal de Justiça, no Juizado Especial Criminal. Em entrevista ao Mais Goiás, ela relembrou as barreiras enfrentadas desde a infância e falou sobre como o incentivo familiar contribuiu para sua formação. Casada há 13 anos, divide a rotina com os oito cães do casal. "Se falar que eu não consigo, aí que eu vou lá e mostro que eu consigo", resume.


Na infância, Kathrein enfrentou dificuldades para ter acesso à educação. Uma escola negou sua matrícula sob a justificativa de que não estava preparada para receber uma aluna com deficiência. Anos depois, ela conseguiu estudar em uma instituição regular e teve professores que marcaram positivamente sua formação. A adolescência, por outro lado, foi tranquila em relação à convivência social: ela conta que não sofreu bullying e teve amizades importantes. A fé também esteve presente nesse período e continua sendo uma referência em sua vida.


Ao olhar para as mudanças desde a infância, Kathrein reconhece avanços, mas avalia que ainda há obstáculos à inclusão. Para ela, a existência de leis que garantem os direitos das pessoas com deficiência não é suficiente quando não são respeitadas na prática.


Tirar a carteira de motorista era um sonho antigo, mas algumas pessoas diziam que ela não conseguiria. Mesmo diante da desconfiança, decidiu tentar. O marido, Luiz, ensinou-a a conduzir um veículo com câmbio manual, na zona rural. Apesar de conseguir controlá-lo, ela tinha dificuldade para coordenar os movimentos necessários à troca de marchas e ao acionamento da embreagem. Por considerar arriscado, decidiu não dirigir em vias públicas ou movimentadas.


A partir dessa tentativa, percebeu que precisava encontrar uma alternativa. Passou então a dirigir um carro com câmbio automático e direção elétrica, que exige menos movimentos e se mostrou mais adequado às suas necessidades. Hoje, Kathrein já consegue conduzir veículos com câmbio automático, embora ainda não tenha um carro próprio. A carteira de habilitação foi entregue pelo ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, durante um evento. Receber o documento representou a realização de grande parte de um sonho que a acompanhava havia anos. "Dirigir não é uma questão de luxo, é uma questão de autonomia também", afirma.


Além da carteira de motorista, Kathrein já praticou mergulho e rapel. Ela conta que essas experiências não foram limitadas por sua deficiência. Para ela, a falta de conhecimento ainda leva muitas pessoas a duvidarem das capacidades de alguém que tem limitações físicas. Kathrein avalia que, muitas vezes, as pessoas enxergam apenas uma forma de realizar determinada tarefa, sem considerar outras possibilidades.


Na cozinha, o aprendizado veio pela observação. Kathrein aprendeu a cozinhar observando a avó, cuja comida admirava desde pequena. Aos poucos, passou a preparar as próprias refeições e hoje faz pratos como moqueca, peixe frito e peixe assado. Ela utiliza utensílios comuns, sem adaptações específicas, e conta que nunca se queimou durante o preparo dos alimentos. Para Kathrein, aprender a cozinhar foi uma questão de observar, experimentar e encontrar seu próprio jeito de fazer as coisas. A postura diante das novas experiências se traduz na forma como encara a vida: "Tudo o que nós propusermos a fazer, nós vamos fazer".

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Tags: #Anápolis #autonomia #carteira de motorista #Kathrein Moura Faria #pessoa com deficiência

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